ontem sonhei com meu pai
que sentava no vaso e desaparecia
puf!
caiam vazios
seu ropão suado e seu pijama de flanela
hoje passei o dia todo esperando um telefonema
ontem sonhei com meu pai
que sentava no vaso e desaparecia
puf!
caiam vazios
seu ropão suado e seu pijama de flanela
hoje passei o dia todo esperando um telefonema
fecho os olhos e
encosto minha testa na tua
vejo as imagens que te povoam a cabeça
as pálpebras cerradas sentem
na penumbra, o contorno de todas coisas
o que atravessa a luz dos meus olhos
é a própria luz, como um cometa
cuja cauda é feita de faíscas resplandecentes
esse pequeno filme
é montado na ordem das máquinas caça-níquel
aleatório, mas possível de prever
o futuro - apesar de repetitivo
(apesar de infinito)
dispensa a presciência
depende apenas de um golpe de sorte
preciso escrever sobre a importância de uma boa saúde mental
digo, dental
mas só penso no que significa futuro
se devo ir morar na beira da praia - enquanto há?
vivendo entre a possibilidade de viver eternamente
e ter uma morte trágica por fungo, vírus ou bactéria
que, há daqui duzentos dias, farão uma vacina ou remédio para
(para aqueles viveram uma vida privando-se de viver a vida)
e eu aqui escrevendo conteúdos para uma rede social
para você ler no ônibus enquanto vai para o trabalho
ter faísca, ter atrito
ter 35 anos
eu olho pro tempo
parece tão pouco
ter publicado livros de poemas
com poemas que você não lembra mais
que escreveu
eu sou poeta, mas não é isso
eu não tenho a poesia
eu escrevo
a lista de pedidos que fiz a deus
ficou maior que a lista do supermercado
(em alguns momentos são apenas "ais")
dentre tantas coisas
pedi que me seja retirado todo poder de decisão
(pra que eu não tome vez ou outra medidas desesperadas)
e que eu aja guiada por ele
mas que também eu sinta
suas mãos guiando o mundo
vou desenhar meu próprio calendário
e chamar de mês e ano aquilo que eu bem entender
então não vou achar estranho que
a cada dia que a gente não se fale
seja como um milhão de horas e não apenas 24
vezes 24 vezes 24 [...]
o que acaba por dar um milhão em algum momento
*
eu conto os números que me separam de você
os dias, as horas, os quilômetros rodados, os anos passados
eu passo a noite contando infinitas estrelas
admirando não o brilho que elas têm,
mas se são velhas ou se estão mortas
e desejo que um dia a distância as apague
pra que eu não tenha que olhar pra elas e lembrar de você